Solitude.

Almoço de domingo. Minha família está reunida em volta da mesa, comendo macarrão com queijo. Minha mãe toma um gole de suco de laranja. Ela me pergunta como foi minha semana. Digo que foi corrido, como sempre. Meu pai enrola macarrão no garfo; ele me pergunta se as coisas vão bem na faculdade. Eu aceno que sim. Meu sobrinho pequeno passa macarrão no meu cabelo. Eu sorrio torto pra direita, passando os dedos no seu nariz pequenininho.

Solitude.

Cerveja com meus amigos. Observo as bolhas explodindo lentamente no meu copo. Observo seus rostos com carinho, grata pelo tom das suas vozes e como acalenta meu coração ouvi-los falar sobre bobagens do seu dia a dia. Meus dedos estão frios.
Eu tomo uma xícara e meia de café pela manhã. Seguro minhas pedras dentro da mão direta e sinto sua temperatura fresca. Medito. Eu olho meu corpo no espelho e encontro mais um defeito pra coleção. Olho pro chão por 10 minutos. Desisto de tentar domar meu cabelo. Eu cozinho. Me deito no chão com o meu cachorro; encosto meu peito nos seus pêlos macios.

Solitude.

Eu saio; bebo mais do que é saudável pra mim. Passo meu batom escuro favorito, visto algo apertado. Faço piadas ruins, flerto; eu me adepto. Mordo os dedos num velho hábito difícil de abandonar.
Pego meu sobrinho no colo e imitamos caminhão juntos. Eu o nino, cantando Million Yeas Ago baixinho, até que ele dorme enfiado no meu pescoço, as mãos enroladas numa bagunça entre os meus cachos. Eu rego minhas plantas, ouço minhas músicas favoritas. Eu respiro fundo, fundo.
Minha melhor amiga ri de alguma coisa que eu disse; o riso dela é tão rico. Minha mãe beija minha testa a noite quando pensa que eu já estou dormindo. O atendente da padaria me dá bom dia; eu acaricio sua mão com delicadeza, grata pela gentileza.

Solitude.

Eu ando nas ruas olhando ao redor, procurando algo. Alguém que eu nem conheço. Eu procuro um sentimento, algo que eu não tenho. Procuro pela segurança como se ela tivesse olhos castanhos e pudesse me olhar de volta. Procuro pelo aconchego como se ele tivesse voz e pudesse me dizer que está tudo bem. Procuro por noites embaixo das cobertas com as pernas entrelaçadas como se houvesse um peito aberto pra me receber na próxima esquina, e eu não posso estar distraída, ou eu vou perder isso. Eu atravesso a avenida. Nenhum olhar me encontra. Eu continuo caminhando. Não sinto vontade alguma de chorar.
Acho que hoje vai chover.

solitude: substantivo feminino
frm. m.q. SOLIDÃO.
Ato de sentir-se só.

(da série dos textos que eu acho perdidos em pen drives caídos em cantos escuros que eu não faço ideia de quando escrevi; esse estava no pen drive vermelho e preto, enfiado entre minha coleção de figurinhas do ensino médio)

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