Ana.

Ouço o sussurro próximo e distante ao mesmo tempo. Levanto meu corpo da grama molhada e fria; tem terra em baixo das minha unhas.
Ainda desnorteada, eu levanto o rosto para o céu e recebo pequenas gotas geladas em troca. Está frio, e chovendo. E eu estou perdida, mais uma vez.

Ana.

Meu corpo treme em reação à voz; não sei de onde ela vem, mas preciso segui-la. Eu me levando e sigo descalça, o vestido branco manchado de marrom, e desço uma colina íngreme. Lá no fim, bem no fim, existe um lago de água cristalina e vegetação fechada. Tem uma mulher sentada ali, numa pedra, de costas para mim. Me precipito à frente e estou prestes a tocá-la quando ela inclina o rosto para o lado. Eu estaco. De cabelo mais comprido e com uma sabedoria nunca sentida por mim desenhada em todo seu maxilar, eu me olho nos olhos. Eu chamei por mim, e eu vim me encontrar.

Dando alguns passos cautelosos para trás, observo a mim mesma: meus pés, também descalços, meu vestido, ainda branco e imaculado, meu rosto sério e seco. Ela é a imagem do controle e um sou o caos inteiro.

- Tenho esperado por você há um tempo; é estranho que tenha demorado tanto para me procurar dentro de si.

Inclino a cabeça. Eu pareço mais velha, mais resoluta. Pareço... distante. Diferente de tudo que sou.

- Ana, você não pode mais continuar com isso. Precisa deixar ir. É necessário abandonar.

Fecho meus olhos com força; sei do que ela está falando. Mas não quero ouvir, então balanço a cabeça de olhos fechados.

- Desse jeito você nunca vai encontrar a paz que busca. Você precisa ser forte o suficiente para entender que ser forte não é o bastante. Você precisa desistir, Ana. Deixá-lo ir.

- Não posso. Não posso. Não consigo mudar.

- Você tem sido sua pior inimiga há anos; você é jovem demais para ter tantos fantasmas.

- Eu não...

- Pare de se machucar.

Enxergo minha expressão dura. Minha garganta fecha num nó.

- Você não entende.

- Eu sei, eu vivi isso. A sua dor é a minha e eu estou dizendo a você: você não pode mais ser tão aberta. Se eles descobrirem o que você é vão te sugar até que você esteja oca e seca. Você precisa resistir.

Toco meu peito como se para me certificar de que meu coração ainda está ali dentro. O peso do último ano recai sobre meus ombros. Sinto vontade de abaixar-me até o chão e abraçar meu próprio corpo como se pudesse me consolar de alguma forma.

Anjo.

Meu mundo estremece no milésimo de segundo que minha mente leva para reconhecer o tom daquela voz. Levanto o olhar e atrás de mim, atrás do meu eu frio, está o motivo de todos os pesadelos que eu nunca posso esquecer e a saudade que não me deixa descansar.

- Pai. Pai!

Tento caminhar em sua direção, mas me encontro presa no lugar. Desespero trava meus nervos e eu olho para o rosto dele como se enxergá-lo pudesse me salvar. Seus olhos castanhos ainda são como eu me lembro.

- Você precisa mudar, doce menina. Seu coração gentil vai ser sua maldição. Você precisa reagir e precisa fazer isso agora. Não desiste dessa vez. Agora é hora de acordar.

Pânico sufoca minha voz na garganta e eu grito, em agonia.

- Não. Não não não. Não me deixa, pai. Me leva com você. Não me deixa sozinha com eles de novo; não me abandona. Não posso te perder mais uma vez.

Eu, com uma expressão triste, seguro a mão do meu pai antes de virar as costas para mim mesma. Meu pai olha para trás uma vez mais antes de seguir em frente, sempre em frente, longe e longe de mim.

A dor rasga minha pele com garras afiadas e eu cravo minhas unhas nos meus próprios braços antes de gritar a plenos pulmões. Eu olho para o céu e amaldiçoo e amaldiçoo até que a chuva caia torrencialmente e eu seja engolida por ela.

Acordo gritando, ofegante, com sangue nas unhas, na minha própria cama. O ar frio bate no meu corpo suado e eu estremeço.

Papai...

Desço da cama e me aconchego num canto na parede, em posição fetal, enquanto meu peito dói e dói e é difícil respirar.

Caio num sono agitado e escuro, onde estou perdida novamente.

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