a última vez que eu chamei o teu nome (o mesmo que eu não consigo mais pronunciar) foi pra te dizer a maior mentira de todas
"eu preciso que você me solte"
numa voz meio grossa meio angústia eu deixei as palavras saírem da minha boca e eu quis morder a minha própria língua pelo tamanho da minha injúria e antes que eu pudesse me machucar você me machucou primeiro
você
me
soltou
te disse pra me soltar quando a única coisa que eu queria fazer era segurar teus dedos nos meus e sentir teus calos e reparar nos detalhes da tua barba e te pedir que você me quisesse do teu lado quando você nunca quis deixar de ser só
e céus
quanto tempo demorei pra perceber que aqui não era onde você queria estar, mas você não sabia como dizer adeus?
eu quis tanto que você me precisasse
eu nunca soube de um abraço de consolo que causasse mais eco
nunca soube de uma partida que rasgasse mais do que quando se vai querendo ficar
"obrigada por ter me amado de volta
pelo tempo que você amou"
eu não pude olhar nos teus olhos pra dizer que tudo iria ficar bem
eu engoli feito rum amargo todos os pedidos pra que você não fosse
eu feri minha própria pele pra me distrair
do desespero de te ver escorrendo pelos bueiros da cidade do meu peito
você foi uma chuva catastrófica numa noite de quarta-feira e você quebrou galhos de árvores e despencou fios de eletricidade e alagou casas e você destruiu tudo na inocência de cair, porque cair é o que você faz
eu te perdoei por partir esse coração porque sei que você nunca o quis e eu sinto tanto, tanto, por ele ser teu
eu posso viver essa vida e as próximas vinte sem você mas eu posso jurar pelo sol que nasce meio laranja rosado todas as manhãs que eu nunca escolheria essa opção
se eu não soubesse que meu abraço não é nenhum lar pra você
se eu não sentisse que todas as vezes que eu tentei te fazer feliz tua paz nunca me pertenceu
se eu não tivesse a certeza de que você não é capaz de lutar por nós porque afinal de contas
nós nunca existimos além dos muros dessa mesma cidade onde eu vivo só
você me pediu que eu não te deixasse ir embora mas isso não era real nunca foi e eu estou me despedindo
apague as luzes agora e vá dormir, doce amor
deite-se comigo e não me conte nenhuma mentira, não outra vez
só me segura firme e não me ampara, não diz que sente muito que acabou
porque eu não posso fazer você me amar se você não quer
você não pode fazer seu coração sentir algo que você não sente
aqui no escuro nesta última noite da nossa história
eu vou apertar meus braços e sentirei essa perda (mas você não, você não)
eu fecho meus olhos porque assim não posso ver o amor que você não sente quando me abraça
amanhã vai chover lá pela noite
o café ainda tem cheiro de casa
eu não fui boa o suficiente, de novo
você não vai sentir minha falta
e essas são as últimas lágrimas
nenhuma outra palavra será escrita
apague as luzes agora e vá dormir, meu doce amor
estou te deixando ir
desculpa a demora pra soltar
eu nunca soube como me despedir

(você ainda é todas as estrelas do meu céu
eu tenho vivido na escuridão já há um tempo)

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